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Poemas de José Augusto Araújo

««« LAMENTO »»»

              - 1975 -

Toda a vida trabalhei,

Toda a vida fui explorado!

Toda a vida passei fome!

Toda a vida fui roubado!

 

Sempre fui homem do campo!

Sempre puxei pela enxada.

Hoje atiram-me para um canto,

Já velho e sem ter nada!

 

Meu filho foi para a guerra,

Por lá a vida perdeu!

Para defender uma terra,

Que nunca lhe pertenceu!

 

Por culpa da burguesia,

Que só me deu miséria e fome!

Amargo o meu dia a dia,

Com uma esmola por reforma!

 

Estou pobre e esfarrapado!

E com a saúde perdida.

Já velho para ser explorado,

Não posso ganhar a vida!

 

Agora que estou no fim,

Pois a vida se consome.

Estou velho pobre de mim!

Resta-me morrer de fome!

 

««««  SONHO  »»»»

           -1977 -

O meu pensamento voa,

Nas asas de um foguetão!

Cruza o espaço e segue à toa,

Com a força da imaginação!

 

Mais veloz que um cometa!

Lá vou pelo espaço eterno,

Cheguei por fim a um planeta,

Que não tem fronteiras nem governos!

 

O povo que é dono da terra,

É livre e vive a cantar!

Não conhecem o que é a guerra!

Não sabem o que é matar!

 

Semeiam o trigo e o centeio,

Cada um no seu lugar,

Ninguém cobiça o alheio!

Não precisam de roubar!

 

Do trabalho vivem todos,

Não há escravo nem patrão!

A lei é igual para todos,

E todos ganham o seu pão!

 

Não sabem o que é a fome!

De tudo têm em abundância,

Lá a inveja não consome!

Nem sabem o que é a ganância!

 

A cada homem a sua mulher,

Todos vivem com amor!

A cada mulher o seu homem,

Não há ciúme nem rancor!

 

Quando o planeta deixei,

Confesso custou-me a largar!

Mas por fim sempre acordei!

Pois tudo isto era a sonhar!...